Só existe um tempo: o tempo
vivo.
- Nossa! Você está tão
trincadinho!
Ele me disse isso com o olhar
escorrendo espanto. Sua pele lembrava as águas se o vento dorme: lisa e mansa.
Sua mão, cruzada à minha, amarrava um abraço entre a primavera e o inverno.
Respirei o ar inteiro, para depois dar nome ao meu susto.
- É o tempo, meu menino, é o
tempo!
- O tempo¿ Eu nunca vi o
tempo.
- Também não. Ninguém vê o
tempo. O tempo não para.Passa ligeiro e ninguém consegue tocá-lo. Ele tem medo
de não atender aos nossos pedidos,por isso, não nos escuta.
- Passa mais depressa que voo
de passarinho¿
- Muito, muito mais.
Passarinho pousa, repousa, dorme, torna a voar e volta ao ninho. O tempo não
tem ninho. Ele está sempre acordado, viajando e vigiando tudo. Sabemos que ele
existe porque modifica todas as coisas. O tempo troca a roupa do mundo. Ele
muda a história, desvia águas, come estrelas, mastiga reinos, amadurece frutos,
apodrece sementes. Nada fica fora do tempo. Moramos dentro dele e impedidos de abraçá-lo.
O tempo foge para não ser amado. Quem ama para e fica. O tempo foge.
- Se o tempo come tudo,deve
ter uma barriga imensa.
- Nós moramos na barriga do
tempo. Ela é mesmo vasta. Guarda até onde o olhar alcança e mais e depois da
fantasia.
- Se o tempo tem barriga, deve
ter coração. Tem¿
- É difícil responder à sua
pergunta. Cada um descobre se o tempo tem coração. Mas, se tem, traz amor e não
medo.
- E você tem medo do tempo¿
- Depende. Em dias de alegria,
eu tenho; em dias de dor, não.
- E o tempo me conhece¿
- Sim. O tempo vê até o depois
do nada. Ele é um fio inteiro, fio frágil, sem começo ou fim. Não tem pontas.
Impossível encontrar o início do tempo.
- Maior que a minha linha de
soltar pipa¿
- Mil vezes mil. Inútil pensar
o tamanho do tempo.
- E se eu me esconder no
buraquinho onde a formiga mora, bem escondidinho, o tempo me amarra com seu
fio¿
- Amarra, sim. Ele conhece as
formigas, as lesmas, as pedras. Sabe do ocidente e do oriente. Do norte e do
sul.
- E se eu fugir para viver
mergulhado com os peixes, bem no fundo do mar, ele me acha¿
- Até lá! O tempo conhece
todos os esconderijos das águas,dos céus e dos ventos.
- E se eu for morar no coração
da abelha¿ Tempo gosta de mel¿
- Também lá ele vai
encontrá-lo e saborear o seu açúcar.
- Ele me conhece mesmo¿
Ninguém me apresentou ao tempo...
- Mas ele sabe de você e o
visita a todo instante. Você terá tempo de conhecer o tempo. Eu já o conheço, e
faz muitos anos. Agora ele ficou menor. Viver é gastar tempo... Viver é
diminuir.
- E se eu me transformar numa
cor da asa da borboleta¿
- O tempo vai desbotá-la.
- Se o tempo come e tem
barriga, ele deve gostar de leite.
- Por quê¿
- Meu pai me resmungou que,
com o tempo, os dentes de leite caem. Aí passei muito tempo sem sorrir. Medo de
abrir a boca e mastigarem os meus dentes. Mas eles caíram assim mesmo, sem eu ver
o tempo.
- ah! Seu pai conhece bem o
tempo. Sabe que ele come os dentes de leite e faz nascer outros no mesmo lugar,
e que podem durar uma vida inteira.
- Acho que um dia ele passou
no pátio da nossa escola. A professora disse que no tempo da primavera as
árvores ficam carregadinhas de flores, como estavam naquele dia. Mas, no
outono, mata até as folhas.
- O mesmo tempo que faz nascer
as flores é capaz de murchá-las.
- O bom é que as flores são
teimosas e brotam de novo.
- Você tem razão. O tempo renova
todas as coisas.
- As flores viraram um tapete
colorido no chão do pátio. A professora colocou uma flor no cabelo e disse que
estava vestida de primavera. Flor dura rápido... Ela virou primavera por poucas
horas. Ao final da aula ela era professora de novo. No recreio, brincamos sobre
as flores ou pisamos no tempo¿
- Ninguém pisa no tempo. Ele
anda sobre nós.
- O tempo é leve ou pesado¿
- Tem dia que ele pisa manso e
nos acaricia. Outro dia, pisa forte e deixa rastro mais fundo.
- Ele é bom e amigo, ou só
envelhece o mundo¿
- Muito, muito bom. Mistura de
fortaleza e doçura. Ele nos promete o dia seguinte. Esperar o amanhã faz o hoje
ficar esperançoso; O coração fica ocupado só com fantasias. Fantasiar é
reinventar o depois. E mais, o tempo faz nossa vida ter passado, presente e
futuro. A memória é amiga do tempo. Ela guarda o que passa e o desejo do que há
de vir. Mas o melhor amigo do tempo é a tolerância. O tempo tem seus caprichos.
- O que é tolerância¿
- Ah! É gostar das coisas
mesmo sabendo que elas não são como eu quero. Aprendi com o tempo.
- Se a memória guarda o tempo,
ela é maior que a barriga dele¿
- É que o tempo pode ser
também apenas um momento. Ele está aqui conosco, agora. Ser só um relâmpago,
ser breve como o susto. Vamos mudar de assunto¿
Há muito eu não reparava no
tempo. Não sei se por medo ou por desânimo. Os dias corriam sem ter minha
atenção. Uma preguiça morna convivia comigo. O tempo faz menores os dias.
Parece que a vida se encosta num canto de tão cansada. Em criança, o tempo
parecia mais leve e longo. De um natal a outro parecia durar cem anos. Era
muito longe. Hoje, ele é curto e demanda cuidados. A infância do menino me
acordou.
Depois de brincar com a renda
das aranhas tecidas nas roseiras, de perseguir o destino das abelhas visitando
o miolo das flores, de jogar pedra no lago para quebrar o espelho das águas, o
menino voltou. Aquietou-se ao meu lado. Amarrou seus dedos aos meus e continuou
a me interrogar.
- Por que seu rosto é
trincadinho¿
- Com o tempo, a pele fica
cheia de carinhos que ele nos faz.
- Como¿ O tempo tem mão pra
fazer carinho¿
- O tempo tem muitas mãos e
penteia o universo inteiro. Ele tem mãos para acarinhar desde o agora até o
sempre.
- Se o tempo come, tem
barriga; se corre, tem pernas; e se tem mãos para os carinhos, deve se parecer
com a gente.
- Mais ou menos. O tempo é transparente,
tem a cor do vazio. É frágil como o vidro e pode se quebrar a qualquer hora.
Por morar em todas as coisas, ele se parece também com a palmeira, o fogo, a
nuvem, a terra, a chuva.
- Se as mãos do tempo fazem
carinho elas também podem fazer cosquinhas¿
- O tempo me faz rir muito.
Agora mesmo estou rindo. Você é um presente que o tempo me traz que me leva ao
começo de mim.
- Mas eu não estou embrulhado
em papel de presente.
- O tempo é pouco
cuidadoso,não enlaça com fitas e cores seus presentes. Nós aprendemos a
descobrir seus agrados.
- Mas os cantinhos dos seus
olhos estão enrugadinhos...
-São os pés-de-galinha.
- Você deixou a galinha ciscar
no seu rosto¿
- Não. É o jeito de falar. As
galinhas andam sobre a terra deixando marcas iguais às do meu rosto. Elas tem
dedos finos, unhas longas e desenham risquinhos no chão.
- A galinha unhou você¿ É por
isso que seus olhos estão pequenininhos¿ Parecem dois risquinhos.
- Galinha não unha,ela bica.
Mas, por tem mais tempo que você, meus olhos estão cansados de tanto ver. Vi
quase tudo no mundo. Quase tudo... Os olhos vão se fechando devagar, cansados
de tanto olhar. Vi tristeza, dor, abandono, injustiça. Mas o tempo me deixou
fortes saudades, felizes amores, definitivos amigos. O tempo morde e sopra.
- Se você já viu tudo, viu
assombração¿
- E muitas. Conheci uma que
tinha boca e não falava, tinha olhos e não via, tinha ouvidos e não escutava,
tinha mãos e não abraçava, tinha pés e não dançava. Corria pelo mundo e não
queria perder tempo.
- Muito sem graça sua
assombração. Desse tipo eu também conheço. Meu pai disse que se chama homem de
negócios. Que que é homem de negócios¿
- Negócio é uma troca que a
gente faz com a vida. Se ficamos sem fazer nada, o tempo fere, dói,machuca.
Então, ocupamos o tempo trabalhando, criando,amando, apreciando a paisagem do
mundo.
- Mas e o homem de negócios¿
- Ele apenas trabalha. Só
pensa em ganhar tempo e dinheiro. Quer comprar o mundo inteiro.
- E compra¿
- Quase tudo, menos o tempo. O
tempo não tem dono nem preço; Não tem nascimento nem morte. Desconhece os pais
e não sente saudade. O trabalho do tempo é amadurecer o mundo.
- Ih, esse tempo é mais
complicado que problema de matemática. E se a professora me perguntar o que é o
tempo¿
- Você escreve um oito
deitado. Ela vai entender.
- O que é um oito deitado¿
- É o infinito.
- O infinito é apenas duas
bolinhas grudadas¿
- Sim, dois zerinhos. Um zero
no início e um zero no fim. Um vazio no início e um vazio no fim.
- E o homem de negócios mora
na barriga do tempo¿
- Mora, mas não pensa. Prefere
achar o contrário: que o tempo mora em sua barriga.
- Então ele acha que tem a
barriga maior que a do tempo¿
- Acha, pra evitar amargura.
Ele mora na barriga do tempo, como tudo. Mas tem horror de imaginar que um dia
o tempo pode abandoná-lo,jogá-lo pra fora. E sem o tempo não vivemos.
- Ah! Conta uma história de
assombração, cheia de terror. Essa do homem de negócios some confunde... Eu
quero uma assombração que venha do outro mundo, de um lugar sem tempo. Tempo
complica.
- Pois não.
Havia na minha rua, uma casa
pequena e branca. Durante dias, lá não vivia ninguém. Mas, se a lua era cheia,
a janela se abria como um livro. Um homem, com rosto de anjo, vestido de luar,
debruçava na janela e pensava, em sossego,sobre a cidade. Mais calado que o
silêncio o homem olhava e mais nos olhava. Todos da cidade tinham cuidado para
não quebrar o seu silêncio. Ninguém soprava uma palavra.
Cochichavam que ele esperava
os habitantes da dormirem. Na noite alta, ele saía para visitar o sono de cada
um. Entrava mansinho, mais leve que o gato, doce como o sereno,suave como o
perfume, e virava um sonho diferente para cada uma das pessoas. Naquela noite
todos dormiam com um leve sorriso na boca.
O prefeito sonhava em ser
governador; o padre, em ser bispo; a professora, em ser diretora; o deputado,
em ser senador; o soldado, em ser tenente; a solteira, em ser casada; o
pedreiro, em ser engenheiro; a criança, em ser grande; o sem-teto, em ter casa.
Todos queria outra coisa. E para tudo precisava tempo. No dia seguinte todos
acordavam como eram antes e com vontade de continuar sonhando.
Mas na cidade havia um menino.
O pai era forte. A mãe, doce. Sua casa ficava perto de um riacho cercado de
pedras. Eram três irmãos. O menino tinha ainda um cachorro e uma bola azul.
Quando o senhor dos sonhos
entrava em seu sono, o menino sonhava apensa com o que já possuía. Um pai,uma
mãe, dois irmãos, um cachorro e uma bola, um riacho com pedras cercando a casa.
O menino não precisava de tempo, sua vida era um sonho.
O senhor do luar voltava para
a casa antiga e fechava o livro da janela. Todos desconheciam quando seria sua
próxima visita para sonhar de novo. Mas o homem sabia que naquela cidade morava
um menino, inteiramente feliz, por saber que viver é um sonho.
O menino guardou uma surpresa
no olhar. Olhava para o muito longe procurando encontrar o nada. Eu sabia que
ele pensava. Sem adivinhar por onde seu pensamento viajava, também me fiz
silêncio. Podia perceber, em sua mão apertando a minha, certo medo rondando seu
coração.Fiquei culpado pela história absurda que tinha inventado. Ela, porém,
já tinha partido da minha boca, e trazer de volta uma história já contada fica
inviável.
- Por que sua testa ficou
amarrotadinha¿ A galinha pisou em sua testa, sem pena...
- É de muito perguntar e não
saber responder. Como você comecei a questionar desde o dia que nasci, e faz
tempo...
- Mas a testa não pergunta, a
palavra está na boca.
- Você tem razão, a testa não
pergunta, ela responde.
- E o que ela tanto responde,
para estar assim amarrotadinha¿
- Dizem que penso muito e falo
pouco. E, se prendemos as palavras, elas saem pelas mãos,olhos, testa. Nem todo
sonho tem resposta. Não sou o menino que vivia o que sonhava. Muitas vezes o
tempo nos impede de sonhar.
- E a sua boca¿ Ela deixava de
falar o que¿
- Das tantas dúvidas, dos
fartos enigmas.
- Mas você disse que o tempo
não tem tempo pra parar e responder.
- Mesmo sabendo que o tempo é
mudo e está sempre em movimento eu não me canso de perguntar. Franzir a testa,
por não saber responder é tudo o que posso fazer.
- Porque não inventa as
respostas¿ Quando não sei as respostas, eu invento e fico acreditando.
O menino permanecia ao meu
lado. Olhava o sol, que diminuía o tamanho das sombras. Antes, grandes
fantasmas se espreguiçavam pelo chão e, agora, se mostrar em tamanho real. Ele
media o chão com os palmos da mão aberta. Olhava pra mim, buscando aprovação.E
tudo eu compreendia. Descobri que a amizade não se mede com o tempo.
- Quero ter um relógio,mas não
sei contar as horas.
- Por que não começa a
aprender escutando as batidas do seu coração¿
-Eu já escuto. De noite.
Enquanto o sono não chega,fico embrulhado no cobertor e meu coração bate sem parar.
- Coração é filho do tempo.
Bate a vida inteira. Se ele para, o
tempo também para. Ms, quando se escuta o coração, descobre-se que ele tem voz.
- Fala o que¿
- Fala sem precisar pronunciar
palavras. Como está dentro de nós, só nós o escutamos. E ele nos conta seus
segredos.
- E meu coração tem segredos¿
- Pergunte a ele. Vai também
lhe responder em segredo.
- Quando for noite, vou
perguntar. Segredo deve combinar melhor com o escuro.
- Se o tempo não tem tamanho,
pra que relógio¿
- O relógio arruma as coisas.
Ele nos aproxima, nos reúne, cria nosso ritmo. Põe ordem na liberdade exagerada
do tempo.
- Quero ter um relógio e saber
medir as horas. Assim poderei encontra-lo outras vezes com hora marcada.
- Não se medem as horas... As
horas a gente só confere.
- O tempo comeu nossa manhã –
eu disse- Agora é meio-dia e ele começa a devorar a tarde. Jamais viveremos
essa manhã novamente. O tempo só anda pra frente.
- Não tem marcha a ré¿
- Não.
- E se eu quiser viver o ontem¿
- Tem de busca-lo na memória.
- E se ela se esqueceu de
guarda-lo¿
- Você insiste, que vai estar
lá. A memória protege tanto o vivido como o sonhado.
- Daqui a pouco vou para a
escola. Quero desenhar o oito deitado e pedir a professora para me ensinar a
olhar as horas. E se ela não souber o que é o oito deitado¿
- Você a ensina como se
escreve o tamanho do tempo.
- Até logo
- Adeus.
Voltei para o antes. Carregava
comigo minha antiga infância. E o menino que morava em mim não mais travou sua
língua. Continuou a me interrogar sobre coisas impossíveis de responder. Meu
coração, pesado de perguntas, se agitava, festivo,ao supor que o tempo é um
saboroso presente. Franzi novamente a testa.