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Tempo de voo - Bartolomeu Campos de Queirós

Só existe um tempo: o tempo vivo.

- Nossa! Você está tão trincadinho!
Ele me disse isso com o olhar escorrendo espanto. Sua pele lembrava as águas se o vento dorme: lisa e mansa. Sua mão, cruzada à minha, amarrava um abraço entre a primavera e o inverno. Respirei o ar inteiro, para depois dar nome ao meu susto.
- É o tempo, meu menino, é o tempo!
- O tempo¿ Eu nunca vi o tempo.
- Também não. Ninguém vê o tempo. O tempo não para.Passa ligeiro e ninguém consegue tocá-lo. Ele tem medo de não atender aos nossos pedidos,por isso, não nos escuta.
- Passa mais depressa que voo de passarinho¿
- Muito, muito mais. Passarinho pousa, repousa, dorme, torna a voar e volta ao ninho. O tempo não tem ninho. Ele está sempre acordado, viajando e vigiando tudo. Sabemos que ele existe porque modifica todas as coisas. O tempo troca a roupa do mundo. Ele muda a história, desvia águas, come estrelas, mastiga reinos, amadurece frutos, apodrece sementes. Nada fica fora do tempo. Moramos dentro dele e impedidos de abraçá-lo. O tempo foge para não ser amado. Quem ama para e fica. O tempo foge.
- Se o tempo come tudo,deve ter uma barriga imensa.
- Nós moramos na barriga do tempo. Ela é mesmo vasta. Guarda até onde o olhar alcança e mais e depois da fantasia.
- Se o tempo tem barriga, deve ter coração. Tem¿
- É difícil responder à sua pergunta. Cada um descobre se o tempo tem coração. Mas, se tem, traz amor e não medo.
- E você tem medo do tempo¿
- Depende. Em dias de alegria, eu tenho; em dias de dor, não.
- E o tempo me conhece¿
- Sim. O tempo vê até o depois do nada. Ele é um fio inteiro, fio frágil, sem começo ou fim. Não tem pontas. Impossível encontrar o início do tempo.
- Maior que a minha linha de soltar pipa¿
- Mil vezes mil. Inútil pensar o tamanho do tempo.
- E se eu me esconder no buraquinho onde a formiga mora, bem escondidinho, o tempo me amarra com seu fio¿
- Amarra, sim. Ele conhece as formigas, as lesmas, as pedras. Sabe do ocidente e do oriente. Do norte e do sul.
- E se eu fugir para viver mergulhado com os peixes, bem no fundo do mar, ele me acha¿
- Até lá! O tempo conhece todos os esconderijos das águas,dos céus e dos ventos.
- E se eu for morar no coração da abelha¿ Tempo gosta de mel¿
- Também lá ele vai encontrá-lo e saborear o seu açúcar.
- Ele me conhece mesmo¿ Ninguém me apresentou ao tempo...
- Mas ele sabe de você e o visita a todo instante. Você terá tempo de conhecer o tempo. Eu já o conheço, e faz muitos anos. Agora ele ficou menor. Viver é gastar tempo... Viver é diminuir.
- E se eu me transformar numa cor da asa da borboleta¿
- O tempo vai desbotá-la.
- Se o tempo come e tem barriga, ele deve gostar de leite.
- Por quê¿
- Meu pai me resmungou que, com o tempo, os dentes de leite caem. Aí passei muito tempo sem sorrir. Medo de abrir a boca e mastigarem os meus dentes. Mas eles caíram assim mesmo, sem eu ver o tempo.
- ah! Seu pai conhece bem o tempo. Sabe que ele come os dentes de leite e faz nascer outros no mesmo lugar, e que podem durar uma vida inteira.
- Acho que um dia ele passou no pátio da nossa escola. A professora disse que no tempo da primavera as árvores ficam carregadinhas de flores, como estavam naquele dia. Mas, no outono, mata até as folhas.
- O mesmo tempo que faz nascer as flores é capaz de murchá-las.
- O bom é que as flores são teimosas e brotam de novo.
- Você tem razão. O tempo renova todas as coisas.
- As flores viraram um tapete colorido no chão do pátio. A professora colocou uma flor no cabelo e disse que estava vestida de primavera. Flor dura rápido... Ela virou primavera por poucas horas. Ao final da aula ela era professora de novo. No recreio, brincamos sobre as flores ou pisamos no tempo¿
- Ninguém pisa no tempo. Ele anda sobre nós.
- O tempo é leve ou pesado¿
- Tem dia que ele pisa manso e nos acaricia. Outro dia, pisa forte e deixa rastro mais fundo.
- Ele é bom e amigo, ou só envelhece o mundo¿
- Muito, muito bom. Mistura de fortaleza e doçura. Ele nos promete o dia seguinte. Esperar o amanhã faz o hoje ficar esperançoso; O coração fica ocupado só com fantasias. Fantasiar é reinventar o depois. E mais, o tempo faz nossa vida ter passado, presente e futuro. A memória é amiga do tempo. Ela guarda o que passa e o desejo do que há de vir. Mas o melhor amigo do tempo é a tolerância. O tempo tem seus caprichos.
- O que é tolerância¿
- Ah! É gostar das coisas mesmo sabendo que elas não são como eu quero. Aprendi com o tempo.
- Se a memória guarda o tempo, ela é maior que a barriga dele¿
- É que o tempo pode ser também apenas um momento. Ele está aqui conosco, agora. Ser só um relâmpago, ser breve como o susto. Vamos mudar de assunto¿

Há muito eu não reparava no tempo. Não sei se por medo ou por desânimo. Os dias corriam sem ter minha atenção. Uma preguiça morna convivia comigo. O tempo faz menores os dias. Parece que a vida se encosta num canto de tão cansada. Em criança, o tempo parecia mais leve e longo. De um natal a outro parecia durar cem anos. Era muito longe. Hoje, ele é curto e demanda cuidados. A infância do menino me acordou.

Depois de brincar com a renda das aranhas tecidas nas roseiras, de perseguir o destino das abelhas visitando o miolo das flores, de jogar pedra no lago para quebrar o espelho das águas, o menino voltou. Aquietou-se ao meu lado. Amarrou seus dedos aos meus e continuou a me interrogar.

- Por que seu rosto é trincadinho¿
- Com o tempo, a pele fica cheia de carinhos que ele nos faz.
- Como¿ O tempo tem mão pra fazer carinho¿
- O tempo tem muitas mãos e penteia o universo inteiro. Ele tem mãos para acarinhar desde o agora até o sempre.
- Se o tempo come, tem barriga; se corre, tem pernas; e se tem mãos para os carinhos, deve se parecer com a gente.
- Mais ou menos. O tempo é transparente, tem a cor do vazio. É frágil como o vidro e pode se quebrar a qualquer hora. Por morar em todas as coisas, ele se parece também com a palmeira, o fogo, a nuvem, a terra, a chuva.
- Se as mãos do tempo fazem carinho elas também podem fazer cosquinhas¿
- O tempo me faz rir muito. Agora mesmo estou rindo. Você é um presente que o tempo me traz que me leva ao começo de mim.
- Mas eu não estou embrulhado em papel de presente.
- O tempo é pouco cuidadoso,não enlaça com fitas e cores seus presentes. Nós aprendemos a descobrir seus agrados.
- Mas os cantinhos dos seus olhos estão enrugadinhos...
-São os pés-de-galinha.
- Você deixou a galinha ciscar no seu rosto¿
- Não. É o jeito de falar. As galinhas andam sobre a terra deixando marcas iguais às do meu rosto. Elas tem dedos finos, unhas longas e desenham risquinhos no chão.
- A galinha unhou você¿ É por isso que seus olhos estão pequenininhos¿ Parecem dois risquinhos.
- Galinha não unha,ela bica. Mas, por tem mais tempo que você, meus olhos estão cansados de tanto ver. Vi quase tudo no mundo. Quase tudo... Os olhos vão se fechando devagar, cansados de tanto olhar. Vi tristeza, dor, abandono, injustiça. Mas o tempo me deixou fortes saudades, felizes amores, definitivos amigos. O tempo morde e sopra.
- Se você já viu tudo, viu assombração¿
- E muitas. Conheci uma que tinha boca e não falava, tinha olhos e não via, tinha ouvidos e não escutava, tinha mãos e não abraçava, tinha pés e não dançava. Corria pelo mundo e não queria perder tempo.
- Muito sem graça sua assombração. Desse tipo eu também conheço. Meu pai disse que se chama homem de negócios. Que que é homem de negócios¿
- Negócio é uma troca que a gente faz com a vida. Se ficamos sem fazer nada, o tempo fere, dói,machuca. Então, ocupamos o tempo trabalhando, criando,amando, apreciando a paisagem do mundo.
- Mas e o homem de negócios¿
- Ele apenas trabalha. Só pensa em ganhar tempo e dinheiro. Quer comprar o mundo inteiro.
- E compra¿
- Quase tudo, menos o tempo. O tempo não tem dono nem preço; Não tem nascimento nem morte. Desconhece os pais e não sente saudade. O trabalho do tempo é amadurecer o mundo.
- Ih, esse tempo é mais complicado que problema de matemática. E se a professora me perguntar o que é o tempo¿
- Você escreve um oito deitado. Ela vai entender.
- O que é um oito deitado¿
- É o infinito.
- O infinito é apenas duas bolinhas grudadas¿
- Sim, dois zerinhos. Um zero no início e um zero no fim. Um vazio no início e um vazio no fim.
- E o homem de negócios mora na barriga do tempo¿
- Mora, mas não pensa. Prefere achar o contrário: que o tempo mora em sua barriga.
- Então ele acha que tem a barriga maior que a do tempo¿
- Acha, pra evitar amargura. Ele mora na barriga do tempo, como tudo. Mas tem horror de imaginar que um dia o tempo pode abandoná-lo,jogá-lo pra fora. E sem o tempo não vivemos.
- Ah! Conta uma história de assombração, cheia de terror. Essa do homem de negócios some confunde... Eu quero uma assombração que venha do outro mundo, de um lugar sem tempo. Tempo complica.
- Pois não.
Havia na minha rua, uma casa pequena e branca. Durante dias, lá não vivia ninguém. Mas, se a lua era cheia, a janela se abria como um livro. Um homem, com rosto de anjo, vestido de luar, debruçava na janela e pensava, em sossego,sobre a cidade. Mais calado que o silêncio o homem olhava e mais nos olhava. Todos da cidade tinham cuidado para não quebrar o seu silêncio. Ninguém soprava uma palavra.
Cochichavam que ele esperava os habitantes da dormirem. Na noite alta, ele saía para visitar o sono de cada um. Entrava mansinho, mais leve que o gato, doce como o sereno,suave como o perfume, e virava um sonho diferente para cada uma das pessoas. Naquela noite todos dormiam com um leve sorriso na boca.
O prefeito sonhava em ser governador; o padre, em ser bispo; a professora, em ser diretora; o deputado, em ser senador; o soldado, em ser tenente; a solteira, em ser casada; o pedreiro, em ser engenheiro; a criança, em ser grande; o sem-teto, em ter casa. Todos queria outra coisa. E para tudo precisava tempo. No dia seguinte todos acordavam como eram antes e com vontade de continuar sonhando.
Mas na cidade havia um menino. O pai era forte. A mãe, doce. Sua casa ficava perto de um riacho cercado de pedras. Eram três irmãos. O menino tinha ainda um cachorro e uma bola azul.
Quando o senhor dos sonhos entrava em seu sono, o menino sonhava apensa com o que já possuía. Um pai,uma mãe, dois irmãos, um cachorro e uma bola, um riacho com pedras cercando a casa. O menino não precisava de tempo, sua vida era um sonho.
O senhor do luar voltava para a casa antiga e fechava o livro da janela. Todos desconheciam quando seria sua próxima visita para sonhar de novo. Mas o homem sabia que naquela cidade morava um menino, inteiramente feliz, por saber que viver é um sonho.

O menino guardou uma surpresa no olhar. Olhava para o muito longe procurando encontrar o nada. Eu sabia que ele pensava. Sem adivinhar por onde seu pensamento viajava, também me fiz silêncio. Podia perceber, em sua mão apertando a minha, certo medo rondando seu coração.Fiquei culpado pela história absurda que tinha inventado. Ela, porém, já tinha partido da minha boca, e trazer de volta uma história já contada fica inviável.

- Por que sua testa ficou amarrotadinha¿ A galinha pisou em sua testa, sem pena...
- É de muito perguntar e não saber responder. Como você comecei a questionar desde o dia que nasci, e faz tempo...
- Mas a testa não pergunta, a palavra está na boca.
- Você tem razão, a testa não pergunta, ela responde.
- E o que ela tanto responde, para estar assim amarrotadinha¿
- Dizem que penso muito e falo pouco. E, se prendemos as palavras, elas saem pelas mãos,olhos, testa. Nem todo sonho tem resposta. Não sou o menino que vivia o que sonhava. Muitas vezes o tempo nos impede de sonhar.
- E a sua boca¿ Ela deixava de falar o que¿
- Das tantas dúvidas, dos fartos enigmas.
- Mas você disse que o tempo não tem tempo pra parar e responder.
- Mesmo sabendo que o tempo é mudo e está sempre em movimento eu não me canso de perguntar. Franzir a testa, por não saber responder é tudo o que posso fazer.
- Porque não inventa as respostas¿ Quando não sei as respostas, eu invento e fico acreditando.

O menino permanecia ao meu lado. Olhava o sol, que diminuía o tamanho das sombras. Antes, grandes fantasmas se espreguiçavam pelo chão e, agora, se mostrar em tamanho real. Ele media o chão com os palmos da mão aberta. Olhava pra mim, buscando aprovação.E tudo eu compreendia. Descobri que a amizade não se mede com o tempo.

- Quero ter um relógio,mas não sei contar as horas.
- Por que não começa a aprender escutando as batidas do seu coração¿
-Eu já escuto. De noite. Enquanto o sono não chega,fico embrulhado no  cobertor e meu coração bate sem parar.
- Coração é filho do tempo. Bate a vida inteira.  Se ele para, o tempo também para. Ms, quando se escuta o coração, descobre-se que ele tem voz.
- Fala o que¿
- Fala sem precisar pronunciar palavras. Como está dentro de nós, só nós o escutamos. E ele nos conta seus segredos.
- E meu coração tem segredos¿
- Pergunte a ele. Vai também lhe responder em segredo.
- Quando for noite, vou perguntar. Segredo deve combinar melhor com o escuro.
- Se o tempo não tem tamanho, pra que relógio¿
- O relógio arruma as coisas. Ele nos aproxima, nos reúne, cria nosso ritmo. Põe ordem na liberdade exagerada do tempo.
- Quero ter um relógio e saber medir as horas. Assim poderei encontra-lo outras vezes com hora marcada.
- Não se medem as horas... As horas a gente só confere.
- O tempo comeu nossa manhã – eu disse- Agora é meio-dia e ele começa a devorar a tarde. Jamais viveremos essa manhã novamente. O tempo só anda pra frente.
- Não tem marcha a ré¿
- Não.
- E se eu quiser viver o ontem¿
- Tem de busca-lo na memória.
- E se ela se esqueceu de guarda-lo¿
- Você insiste, que vai estar lá. A memória protege tanto o vivido como o sonhado.
- Daqui a pouco vou para a escola. Quero desenhar o oito deitado e pedir a professora para me ensinar a olhar as horas. E se ela não souber o que é o oito deitado¿
- Você a ensina como se escreve o tamanho do tempo.
- Até logo
- Adeus.


Voltei para o antes. Carregava comigo minha antiga infância. E o menino que morava em mim não mais travou sua língua. Continuou a me interrogar sobre coisas impossíveis de responder. Meu coração, pesado de perguntas, se agitava, festivo,ao supor que o tempo é um saboroso presente. Franzi novamente a testa.

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