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Mineiro

my specialty is living Said
a man ( who could not earn his bread
because he would not sell his head)
e.e. cummings

Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for...
Existe é homem humano. Travessia.
João Guimarães Rosa


Erguendo viagem á luz dos teus olhos velho mineiro, o que te sobra e o que te falta, qual a medida sentida para que a distribuição dos dotes não te deixe sozinho na partida nem te leve de encontro à derrocada onde espera a morte afanada que a todos arranca da vida e conduz ao velho e fendido nada.
Velho mineiro vindo do fundo do vale sem guia cuja profundidade anuncia o clamor das distâncias no horizonte do teu caminhar que principia. Há que se vergar às querências? Catalogar as ausências? Ou persistir no que se precisa, de desconfiança e desobediência?
Disposta a visão do paraíso o mineiro julga o lugar muito elevado e num salto preciso, de concisão elegante e certeiro traçado, volta ao antigo roçado. O que agora é senão o mesmo que era antes? Sabe o mineiro do que transborda de tua fonte?
O signo da salvação estreita no horizonte o recorte acinzentado do céu onde ondulam nas distâncias a fluidez das nuvens. De onde vens velho mineiro? De que outeiro, de que sangria de azul? Conta-me o que é teu.
- De meu não tenho nada, somente a ira do caminho e a poeira da estrada.
Não há nenhum clarão ao fim da travessia. Não há o que me oriente na jornada, somente a sensação de tê-la feito já nas velhas passadas, quando eu ainda existia sem o peso do que me oprime nem o clamor da necessidade. Nesta cidade conta-me então o que te amedronta? O medo de que o destino lanhado tenha sido esculpido na forja funda e escura da mina, muito de sombra e umidade na alma e um sinuoso fado em lugar da sina. Um pouco de torpor e a precisão de cerrar pestanas quando a luz anuncia-se à visão, quando o que cega não é o breu, mas a claridade e o que prende não é o estreito da trilha mas a vasta amplidão da campina.
Mineiro qual é a tua vontade? De onde tiras a dor que sempre te invade e cobra antigos proventos? Não te sobra jamais nenhum contentamento dentro da sombra onde estás?
- Digo-te que nel mezzo del cammin di nostra vita mi ritrovai per uma selva oscura, de onde tirar a medida se todas as medidas foram excedidas? Como achar o caminho se o caminho mesmo não existe, faz-se o caminho ao andar? De onde a pura noção se o olhar jamais se afunda no poente nem tira de lá a semente pra germinar na canção? Concisão, pureza, leveza e melancolia. No ar ondeia tudo é lá que tudo principia. Pátios pequenos tudo medido em pequenas doses tanto as glórias quanto os reveses, a sucessão dos anos e dos meses. Desfia o mineiro as contas de sua vida como se contasse reses, como se cuidasse para que nada escapasse, como se sua alma sempre temesse a desmesura, a elevação excessiva da temperatura.
Nos pequenos gestos estão contidos os grandes feitos e o mundo não foi criado com uma explosão, mas com uma palavra pequena disposta nas trilhas da providência pela onisciência escondida sob os frutos de sua lavra.
Não é de proveito que se rime em prosa, pois a prosa deve achar a sua própria cadência, extrair do seu caminhar sua própria ciência. Portanto, o mineiro vive de pequenas violações de pequenos crimes e muitos perdões. Mas não é a violação aquela que põe o próprio sentido da regra, a indecisão que permite o máximo de escolha como a imaginação diante do branco da folha? Alguém nega? No que não se sabe abre-se à liberdade o sabre que corta a rigidez do necessário e provê a possibilidade de prever qualquer itinerário.
Por que se importar com o itinerário? Por que traçar a meta se a nossa poesia nunca é feita em linha reta? A horizontalidade é o afã eterno dos que vivem soterrados nos vales e a verticalidade o caminho mais curto que ata as duas pontas do inferno.
O mineiro vive a saudade das distâncias. Como todo homem sofre pelo que não teve e teme a razão que clareia as trilhas descortinando a fatalidade perceptível e irrefreável. Por que perguntar quando? Por que determinar a data se ao fim soma-se ao tempo apenas o lado que nos mata?
O que se deve ser e o que se deve fazer? Oh, minha alma, não aspires à vida imortal nem tentes esgotar o campo do possível, mas abra a fresta e permita entrar a réstia de luz que delineia o visível. Se o destino não é nosso, não há por que perguntar pelo que faço. Falam muito do destino, todos cometem o mesmo desatino e eu mesmo até nem sei se acredito, eu que fui criado solito, mas sempre bem prevenido. Índio de queixo torcido que se amansou na experiência. Melhor voltar pra querência, lugar onde fui parido.
(Pra carregar esta carga o mineiro recorre ao gaúcho, dá me a palavra João Vargas que outra palavra não peço nem preciso de outro luxo.)
Ora, não te assanhes em pensamentos compridos nem te violes aos destinos cumpridos: cumpre o que te cabe e faça-te visível ao que te sabe.
Melhor mineiro não é o que chora pelas horas perdidas, nem lamenta pelo adeus das partidas, mas o que sabe guardar a memória dos bardos das ramadas, das violas nas toadas, das flores das quaresmeiras, dos rios e cordilheiras das fogueiras encantadas abrindo no chão um espaço para que entre inteiro, completo o infinito da noite estrelada. Mineiro gauchesco saúda as cordeonas afanadas animando fandangos e quadrilhas, memória do que não teve, saudade das outras trilhas e das outras caminhadas cumpridas por outros destinos que se cruzam no fim da estrada.
Os homens andam vários caminhos, mas faz-se uma só caminhada.
Disso o mineiro sabe: acomoda-te dentro do que te cabe e deixa o resto ao que precisa e quando for necessário dar conta do inventário, avisa.
Do mineiro nunca se obtém tudo o que ele mesmo contém, vasilhame de muita valia, vida a varar travessia e guardar bem guardado no fundo de tudo o que mais convém.
E o fim que te espera? Nada a temer: nec spe nec metu, quando vier a hora de transitar em outras esferas, nenhuma esperança e nenhum medo, apenas o momento de guardar outros segredos.
E enfim qual o sentido? Não aninhes na alma o que te falta, apenas abre o espaço a ser preenchido por tudo o que na vida nos tem perdido. Ao fim deixe que a vida te encontre a contemplar o mesmo horizonte na saudade das estradas, te resgate de ti mesmo e te repouse em outra ramada. Que te leve em suas velhas asas pra um lugar em que se tenha muita festa e muita carne de brasa, porque a grande viagem que todos fazemos um dia é só uma volta pra casa.

Plínio F. Toledo

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