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Calo-me...

As palavras são tão fugidias como o vento e o que eu tinha pra dizer também se foi com ele. Já não sei o que era, já não lembro o que senti ou o que fui a segundos atrás. Assim são essas coisas internas, se não forem externalizadas imediatamente se perdem no fosso que cavamos em nós mesmos. Ah esse vazio, cheio das palavras desperdiçadas, dos momentos perdidos, dos rabiscos jogados ao vento, da voz que emudeceu. A esse vazio tão cheio de outros eus que adormeceram no peito do tanto que silenciados foram. 
Os momentos se vão, esfriam como o chá que está na minha frente e que esqueci de beber. Agora o gosto já não é o que se espera. Calei-me de novo...deixei passar...Já nem sei a que eu de mim reclamo esse tempo perdido. A vida é esse perder-se? O deixar ir esses ecos tão baixos, tão distantes...O que é agora afinal? O agora é tão frágil quanto o que já foi ou o que nem é...No que se segurar sem o chão firme debaixo dos pés? O agora é tão vazio...logo passa e escapa entre os dedos, pior que fumaça. O que cabe agora é a memória? É a única coisa que tenho? Mas ela não sabe mais o que é ser, é só um retrato, um retrato...Não consegue expressar com exatidão o que foi-se pra além dela mesma. Então ela se cala, calo-me. 

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Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro antes, durante e depois de te encontrar. Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar. Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência, pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua desajeitada e irrefletida permanência. Martha Medeiros

Poemas da amiga - Mário de Andrade

Poemas da amiga VII Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e de um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. De Poemas da Amiga Mário de Andrade

Chuva

Quem sabe ver a beleza de um dia chuvoso e apreciar a chuva não precisa de mais nada como prova de que é feliz. Não é só dizer que tomar chuva lava a alma. E que a chuva leva embora o que era ruim. A chuva traz sentimentos tão bons e uma paz tão profunda de espírito. Cada pingo e respingo,barulhos, cheiro. A sensação de que tudo dentro de você está quieto e que sua alma está livre, dançando.Ternura, me sinto terna. Me sinto em paz com a minha vida, com quem eu sou e com quem quero ser. A chuva freia. Te pede pra ir devagar, deleitar. Respirar fundo. Sem essa ânsia desenfreada de concretizar seus planos e mudar mudar mudar. Quem sabe enxergar a chuva cair, quem sabe escutar, escuta que as mudanças são diárias, pequenas, mudas. E a chuva gritando em plenos pulmões só avisa que não é preciso desdobramentos extraordinários, porque extraordinária é ela. É o que está a nossa volta. É a vida. Ela te fala manso, entre seus gritos de euforia que nós só precisamos viver.