O adjetivo “bucólico” nasceu do termo grego boukoliká, que quer dizer "cantos de boiadeiros". A palavra tem seu significado ligado à vida campestre, pastoril. Podemos entender por bucólico tudo o que é singelo, ingênuo, inocente, simples, sossegado. Os vídeos de Joacélio Batista intitulados “Bucólica I” e “Bucólica II” reafirmam esse significado retratando cenas cotidianas e pitorescas.
Os vídeos retratam cenas como a de um ventilador ligado, partes de uma casa tranqüila sem movimento aparente. O movimento ondulatório da água e até insetos passando. São cenas de uma realidade rotineira, quieta, parada e imóvel em um primeiro olhar, mas que se forem vistas com atenção, pulsa em seus detalhes.
Vídeos dedicados ao ócio, a uma rotina inquietante. Capta o que há de mais simples, sossegado, tranqüilo ou bucólico, como preferir chamar, que passa despercebido, talvez pelo tédio que traz a rotina, mas que estão ali, o tempo todo.
Joacélio Batista nos faz começar a olhar pro que não olhávamos antes em nosso dia-a-dia. Notar que mesmo na inércia, nos dias parados, em uma vida bucólica, tem sempre alguma coisa acontecendo, se movimentando. E não é preciso ir muito longe pra perceber o movimento. Ali mesmo, no seu ócio, na sua rotina, tem o vento impulsionado do ventilador, tem a água se movimentando em cada molécula, tem a vida de uma colônia de insetos. Comecei a sentir, depois de ver os vídeos, o meu dia-a-dia bucólico, sossegado, ingênuo, simples, enfim, todo esse significado, como realmente fantástico em cada detalhe que pude notar e espero continuar notando.
São vídeos que exercitam o olhar pra além do nosso dia-a-dia apenas, mostrando que dentro de uma realidade há várias realidades e milhões de coisas acontecendo ao mesmo tempo. Enquanto você enrola um cigarro, uma lagartixa se alimenta de um mosquito, enfim. O que parece extremamente rotineiro e parado traz em cada canto, cada detalhe perdido pela fugacidade dos acontecimentos, uma intensidade de significado, um movimento que cabe a nós captar. E entendo o vídeo como uma descrição perfeita da exposição intitulada “Sismógrafo”.
O Sismógrafo é um aparelho que capta e registra ondas sísmicas e por ele é possível determinar a intensidade de um terremoto, e traçar um gráfico de um território em movimento. Acredito que analogamente ao significado, toda a exposição e em especial os vídeos de Joacélio Batista, revelam a vitalidade e a riqueza das obras expostas e ainda mais, um apelo ao exercício do olhar, do saber ver intensamente os detalhes, saber captar cada instante, como o sismógrafo consegue até no menor indício de movimento, que a nós, parece imperceptível.